Sete e quinze. O despertador do celular toca. Aperto o botão de “soneca” dezesseis vezes. Resolvo não ir trabalhar. Reproduzo uma voz de doente e ligo para o escritório:
- Alô. Oi Teodora. Hoje vou chegar mais tarde, passei a noite muito mal.
Não entendi porque disse que chegaria mais tarde. A intenção era nem aparecer naquele escritório cheio de pessoas pedantes e falsas. O simples pensamento me fazia enfiar mais a cara no travesseiro, ainda mais com a chuva caindo lá fora.
- É um desperdício – pensei.
Lá pelas dez horas me levanto. Pego um cigarro, abro a geladeira, olho e desisto. Vou fumar primeiro pra pensar no que quero comer no café.
Trabalho num escritório do governo em Brasília, bem na esplanada dos ministérios. Virou uma tortura pra mim: cheio de pessoas metidas a intelectuais, como se tivessem a porra dum rei gordo na barriga. Só de lembrar, meu sangue ferve. Acendo o cigarro e fico planejando o dia.
Faço uns ovos mexidos com linguiça e encho um copo grande com suco de laranja de caixa enquanto coloco no canal 41 para assistir o noticiário no Globonews.
Depois do cigarro pós café, resolvo tomar um banho e sair. Provavelmente devo encontrar dois ou três amigos para desperdiçar o dia. Ou ganhar. No meu ponto de vista, estava ganhando alguns dias de sobrevida sem ir àquele escritório de merda.
Me visto com uma calça jeans surrada, camiseta branca e um tênis de camurça velho mas muito confortável. Bebo um gole de whisky, pego uma stella artois na geladeira e sinto que está faltando alguma coisa.
- Preciso comprar maconha – penso.
A melhor companhia para um dia matando trabalho seria um baseado bem servido. Mas as coisas estavam difíceis em Brasília. Desde que um amigo foi embora da cidade, não consegui mais encontrar. Por um lado seria bom porque sairia de casa. Caso tivesse um pouco de erva, ficaria entrevado no sofá mudando de canal, jogando videogame e assistindo filmes pornôs.
Pego a chave do carro, acendo um cigarro e coloco um cd com músicas variadas. Após pular três ou quatro músicas, começa a tocar The Vines. Aumento bastante o som e saio.
Penso em passar na casa do Edu na 403 Norte mas desisto ao lembrar que ele está noivo e desde então começou a rarear a saída com os amigos. Fiquei meio puto mas mantive no pensamento que um dia entenderia, mesmo já imaginando que quando esse dia chegasse eu não conseguiria entender.
Vagando pela L2 Norte, lembro do Sá. Magrelo, chato pra caralho mas sempre tinha maconha. Pesei os prós e contras e resolvi passar lá. Planejei escutar seus lamúrios até conseguir o que estava querendo. Depois daria o fora.
Sá era um chato insuportável. Não o considerava um amigo: preguiçoso, reclamão e metido a malandro. Estava com 23 anos, trabalhava numa farmácia apenas dois dias na semana. Os outros ele matava com atestados e mentiras pra ficar em casa fumando.