domingo, 24 de fevereiro de 2008

Funeral

Mariano Costaclaro

Com um gosto terrível na boca eu começo o dia. Sensação desanimadora. Vomitar. Era só no que pensava. O sol que entrava pela janela queimava minha cabeça. O pensamento de nunca mais sequer pensar em colocar vodka na boca imperava.
Depois de meia hora envolto em pensamentos confusos e uma dor terrível de cabeça, resolvo levantar-me. Após uma girada de cabeça previsível, me vem o primeiro pensamento plausível: preciso de um banho.
A casa estava deplorável: garrafas de Excess Black pela cozinha, pizzas espalhadas pela pia, nenhum copo limpo. Não há nada limpo. Pratos, talheres,detergente,panos,restos de pão,restos de comida, formigas e uma banana grudada na parede perto da torneira. Esse era o fiel retrato da minha cozinha aquela manhã. E eu não imaginava como aquela banana havia parado ali.
Foi tentando lembrar sobre a fruta que o telefone tocou. Caiu de tanto chamar. Acendi um cigarro e fiquei andando apenas de cueca pelo apartamento. Após 5 passos fora da cozinha vi que a casa estava em situação bem pior.
Novamente o telefone tocando. Quem poderia ser? Minha mãe querendo notícias? Algum parente procurando o endereço de outro parente? Algum amigo querendo saber qual a boa de hoje? Algum amigo querendo me zoar por ter comido a mesma garota que, minutos antes do primeiro gole de vodka eu disse que não iria nem beijar? Algum amigo me chamando pra fumar? A ligação caiu de novo. Merda. Poderia ser alguém me chamando pra fumar.
Ao sair do banho vejo meu celular tocando. Não sei se pela revigorada do banho, resolvo atender. Imóvel apenas respondo: “ - Tá bom. Estarei lá.”
Procuro uma roupa para combinar com a ocasião. Um funeral. Preto. Sempre preto e isso não seria problema. A dúvida era se iria com um emblema de Led Zeppelin ou NOFX. As duas únicas camisas limpas. Pelo menos eu julgava serem. Vai a do NOFX mesmo. Provavelmente meus parentes mais velhos nem imaginam o que seja. Os mais novos, meus primos, talvez percebam mas não vão dar a mínima.
Um funeral. Em pleno sábado. Meu tio Alfredo falecera. Há tempos não tinha contato com ele. Há tempos não tenho contato com a família. O simples fato de imaginar a reação de surpresa dos familiares ao me ver enojava. Resolvi contar quantas vezes pronunciariam “você está sumido!”.
O maior problema ainda era a ressaca. Que saco! Hidratar o corpo não adiantava a curto prazo. Resolvi tomar algumas doses de Jack Daniels que havia sobrado em uma garrafa esquecida perto da banana que mais parecia uma escultura de arte moderna na minha cozinha. Imaginei na hora essa cena em uma exposição. Era o álcool fazendo efeito novamente.
Me olhei no espelho, arrumei o cabelo, peguei umas pastilhas de menta, a chave do carro e saí sem olhar pra trás. Aquele apartamento era meu túmulo.
Dentro do carro, acendi um outro cigarro. A cabeça doía demais. Acendi o cigarro e não liguei o som. Estava enjoado demais. Resolvi parar numa loja de conveniência. Comprei uma mini vodka e um energético. Não acreditava que estava bebendo vodka novamente após aquela noite. Era por um bom motivo.
Uma hora e quinze minutos depois estava na casa do meu tio Alfredo. Vários carros estacionados em frente a casa me obrigaram a parar longe. Esperei cinco minutos e saí. De óculos escuros pude avistar algumas primas pequenas que não acreditavam no que viam: seria Gabriel? Cabelos negros emaranhados, calça jeans gasta e um tênis sujo? Aquilo na mão era um cigarro? Gabriel. Há quanto tempo. Você ta sumido!
Depois de sorrir com o canto da boca e desviar de abraços melosos das primas pequenas, entro na casa pela porta da cozinha. Dois ou três rostos desconhecidos depois, encontro com o primeiro rosto conhecido: tia Aurora. Gabriel. Você está sumido!
Não conseguia dizer nada. Como eu queria mais uma vodka. A única coisa que disfarçava a minha conduta estranha era eu estar num velório. Poderia ficar calado. Ótimo. O problema era encontrar com minha mãe.
Após contar quatro “você está sumido” e dois “como você está magro”encontro minha mãe. Estava abatida e quando me viu não mudou suas feições. Estava ao lado do corpo do tio Alfredo. Era seu irmão e minha mãe a mais afetiva. Ela realmente deveria estar triste e não sei se minha presença fez bem ou mal. Talvez ela tenha ficado alegre em me ver após tanto tempo. Talvez ela tenha ficado triste em ver seu filho aparecendo apenas nessa circunstância. Ela não queria associar minha presença à morte.
Encostei na parede e fiquei olhando pro corpo. Tio Alfredo havia morrido de efisema pulmonar. Efeitos dos cigarros fumados ao longo de 40 anos. “No efects”. Foi o que respondi prontamente a uma prima quando veio me questionar sobre o dizer em minha camisa. O sarcasmo foi proposital. Respondi enquanto olhava o corpo e fumava um cigarro.