segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O começo - tédio

Sete e quinze. O despertador do celular toca. Aperto o botão de “soneca” dezesseis vezes. Resolvo não ir trabalhar. Reproduzo uma voz de doente e ligo para o escritório:

- Alô. Oi Teodora. Hoje vou chegar mais tarde, passei a noite muito mal.

Não entendi porque disse que chegaria mais tarde. A intenção era nem aparecer naquele escritório cheio de pessoas pedantes e falsas. O simples pensamento me fazia enfiar mais a cara no travesseiro, ainda mais com a chuva caindo lá fora.

- É um desperdício – pensei.

Lá pelas dez horas me levanto. Pego um cigarro, abro a geladeira, olho e desisto. Vou fumar primeiro pra pensar no que quero comer no café.

Trabalho num escritório do governo em Brasília, bem na esplanada dos ministérios. Virou uma tortura pra mim: cheio de pessoas metidas a intelectuais, como se tivessem a porra dum rei gordo na barriga. Só de lembrar, meu sangue ferve. Acendo o cigarro e fico planejando o dia.

Faço uns ovos mexidos com linguiça e encho um copo grande com suco de laranja de caixa enquanto coloco no canal 41 para assistir o noticiário no Globonews.

Depois do cigarro pós café, resolvo tomar um banho e sair. Provavelmente devo encontrar dois ou três amigos para desperdiçar o dia. Ou ganhar. No meu ponto de vista, estava ganhando alguns dias de sobrevida sem ir àquele escritório de merda.

Me visto com uma calça jeans surrada, camiseta branca e um tênis de camurça velho mas muito confortável. Bebo um gole de whisky, pego uma stella artois na geladeira e sinto que está faltando alguma coisa.

- Preciso comprar maconha – penso.

A melhor companhia para um dia matando trabalho seria um baseado bem servido. Mas as coisas estavam difíceis em Brasília. Desde que um amigo foi embora da cidade, não consegui mais encontrar. Por um lado seria bom porque sairia de casa. Caso tivesse um pouco de erva, ficaria entrevado no sofá mudando de canal, jogando videogame e assistindo filmes pornôs.

Pego a chave do carro, acendo um cigarro e coloco um cd com músicas variadas. Após pular três ou quatro músicas, começa a tocar The Vines. Aumento bastante o som e saio.

Penso em passar na casa do Edu na 403 Norte mas desisto ao lembrar que ele está noivo e desde então começou a rarear a saída com os amigos. Fiquei meio puto mas mantive no pensamento que um dia entenderia, mesmo já imaginando que quando esse dia chegasse eu não conseguiria entender.

Vagando pela L2 Norte, lembro do Sá. Magrelo, chato pra caralho mas sempre tinha maconha. Pesei os prós e contras e resolvi passar lá. Planejei escutar seus lamúrios até conseguir o que estava querendo. Depois daria o fora.

Sá era um chato insuportável. Não o considerava um amigo: preguiçoso, reclamão e metido a malandro. Estava com 23 anos, trabalhava numa farmácia apenas dois dias na semana. Os outros ele matava com atestados e mentiras pra ficar em casa fumando.


===== Fim da primeira parte ====

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Funeral

Mariano Costaclaro

Com um gosto terrível na boca eu começo o dia. Sensação desanimadora. Vomitar. Era só no que pensava. O sol que entrava pela janela queimava minha cabeça. O pensamento de nunca mais sequer pensar em colocar vodka na boca imperava.
Depois de meia hora envolto em pensamentos confusos e uma dor terrível de cabeça, resolvo levantar-me. Após uma girada de cabeça previsível, me vem o primeiro pensamento plausível: preciso de um banho.
A casa estava deplorável: garrafas de Excess Black pela cozinha, pizzas espalhadas pela pia, nenhum copo limpo. Não há nada limpo. Pratos, talheres,detergente,panos,restos de pão,restos de comida, formigas e uma banana grudada na parede perto da torneira. Esse era o fiel retrato da minha cozinha aquela manhã. E eu não imaginava como aquela banana havia parado ali.
Foi tentando lembrar sobre a fruta que o telefone tocou. Caiu de tanto chamar. Acendi um cigarro e fiquei andando apenas de cueca pelo apartamento. Após 5 passos fora da cozinha vi que a casa estava em situação bem pior.
Novamente o telefone tocando. Quem poderia ser? Minha mãe querendo notícias? Algum parente procurando o endereço de outro parente? Algum amigo querendo saber qual a boa de hoje? Algum amigo querendo me zoar por ter comido a mesma garota que, minutos antes do primeiro gole de vodka eu disse que não iria nem beijar? Algum amigo me chamando pra fumar? A ligação caiu de novo. Merda. Poderia ser alguém me chamando pra fumar.
Ao sair do banho vejo meu celular tocando. Não sei se pela revigorada do banho, resolvo atender. Imóvel apenas respondo: “ - Tá bom. Estarei lá.”
Procuro uma roupa para combinar com a ocasião. Um funeral. Preto. Sempre preto e isso não seria problema. A dúvida era se iria com um emblema de Led Zeppelin ou NOFX. As duas únicas camisas limpas. Pelo menos eu julgava serem. Vai a do NOFX mesmo. Provavelmente meus parentes mais velhos nem imaginam o que seja. Os mais novos, meus primos, talvez percebam mas não vão dar a mínima.
Um funeral. Em pleno sábado. Meu tio Alfredo falecera. Há tempos não tinha contato com ele. Há tempos não tenho contato com a família. O simples fato de imaginar a reação de surpresa dos familiares ao me ver enojava. Resolvi contar quantas vezes pronunciariam “você está sumido!”.
O maior problema ainda era a ressaca. Que saco! Hidratar o corpo não adiantava a curto prazo. Resolvi tomar algumas doses de Jack Daniels que havia sobrado em uma garrafa esquecida perto da banana que mais parecia uma escultura de arte moderna na minha cozinha. Imaginei na hora essa cena em uma exposição. Era o álcool fazendo efeito novamente.
Me olhei no espelho, arrumei o cabelo, peguei umas pastilhas de menta, a chave do carro e saí sem olhar pra trás. Aquele apartamento era meu túmulo.
Dentro do carro, acendi um outro cigarro. A cabeça doía demais. Acendi o cigarro e não liguei o som. Estava enjoado demais. Resolvi parar numa loja de conveniência. Comprei uma mini vodka e um energético. Não acreditava que estava bebendo vodka novamente após aquela noite. Era por um bom motivo.
Uma hora e quinze minutos depois estava na casa do meu tio Alfredo. Vários carros estacionados em frente a casa me obrigaram a parar longe. Esperei cinco minutos e saí. De óculos escuros pude avistar algumas primas pequenas que não acreditavam no que viam: seria Gabriel? Cabelos negros emaranhados, calça jeans gasta e um tênis sujo? Aquilo na mão era um cigarro? Gabriel. Há quanto tempo. Você ta sumido!
Depois de sorrir com o canto da boca e desviar de abraços melosos das primas pequenas, entro na casa pela porta da cozinha. Dois ou três rostos desconhecidos depois, encontro com o primeiro rosto conhecido: tia Aurora. Gabriel. Você está sumido!
Não conseguia dizer nada. Como eu queria mais uma vodka. A única coisa que disfarçava a minha conduta estranha era eu estar num velório. Poderia ficar calado. Ótimo. O problema era encontrar com minha mãe.
Após contar quatro “você está sumido” e dois “como você está magro”encontro minha mãe. Estava abatida e quando me viu não mudou suas feições. Estava ao lado do corpo do tio Alfredo. Era seu irmão e minha mãe a mais afetiva. Ela realmente deveria estar triste e não sei se minha presença fez bem ou mal. Talvez ela tenha ficado alegre em me ver após tanto tempo. Talvez ela tenha ficado triste em ver seu filho aparecendo apenas nessa circunstância. Ela não queria associar minha presença à morte.
Encostei na parede e fiquei olhando pro corpo. Tio Alfredo havia morrido de efisema pulmonar. Efeitos dos cigarros fumados ao longo de 40 anos. “No efects”. Foi o que respondi prontamente a uma prima quando veio me questionar sobre o dizer em minha camisa. O sarcasmo foi proposital. Respondi enquanto olhava o corpo e fumava um cigarro.